Restaurante popular da Central do Brasil reabre as portas para ceia natalina gratuita

Cerca de 1,5 mil pessoas foram presenteadas nesta sexta-feira (23) com uma farta ceia natalina. Fechado há 45 dias, o Restaurante Popular do Betinho, na Central do Brasil, reabriu as portas para oferecer o almoço gratuito.
No cardápio, pernil a Califórnia, farofa de passas, arroz, feijão, salada mista, carne moída, refresco, doce de leite de sobremesa e um mini panetone de brinde.
"A comida não estava boa não. Estava ótima! Mas tem que ser todo dia", disse a aposentada Frankirland Ferreira de Souza, 74 anos. Ela disse ser frequentadora do espaço desde a inauguração, em 2000, e lamenta o fechamento.
"Eu fiquei triste pelas pessoas. Eu choro é pelos moradores de rua que não tem outra opção para comer. Eu tenho condições de comer até quando deus me der forças. Eu gosto daqui é por causa das amizades que fiz", disse a aposentada. Frankirland revelou que sempre que podia pagava para que outras pessoas também pudesse aproveitar a refeição oferecida no restaurante popular.
Restaurante abriu às 11h e ficou cheio em poucos minutos (Foto: Daniel Silveira)Restaurante abriu às 11h e ficou cheio em poucos minutos (Foto: Daniel Silveira)
Restaurante abriu às 11h e ficou cheio em poucos minutos (Foto: Daniel Silveira)
A primeira pessoa a entrar no restaurante disse que chegou na fila às 7h. Moradora de Vicente de Carvalho, na Zona Norte, ela não era usuária do restaurante da Central do Brasil, mas soube pela rádio que seria servida a ceia natalina e decidiu garantir o seu lugar. "Eu fiquei muito feliz. A comida estava uma delicia", disse. Tímida, ela não quis revelar seu nome.
A ceia natalina foi oferecida pela empresa HB Multisserviços, que é responsável pelas unidades do restaurante popular da Central do Brasil, da Cidade de Deus, e das estações de trem onde era servido café da manhã.
Segundo a porta-voz da empresa, a ceia natalina foi uma ação pontual com o objetivo de garantir um pouco de alegria para as pessoas que estavam acostumadas a fazer a refeição no restaurante popular. Sem o pagamento por parte do estado, retomar a atividade é inviável para a empresa.
"Eu acho que essa iniciativa de oferecer esse almoço gratuito é uma forma de estar se solidarizando com essas pessoas que estavam acostumadas a ter uma refeição de qualidade a preço baixo e agora não tem mais essa opção. A gente está garantindo ao menos uma refeição de qualidade nesta data festiva. Tem muita gente aqui que não vai ter nada para comer no dia 25", disse a nutricionista e gerente do Restaurante Popular do Betinho, Fabiana Reis.
Luciana disse que passou a gastar R$ 10 para almoçar após p fechamento do restaurante (Foto: Daniel Silveira)Luciana disse que passou a gastar R$ 10 para almoçar após p fechamento do restaurante (Foto: Daniel Silveira)
Luciana disse que passou a gastar R$ 10 para almoçar após p fechamento do restaurante (Foto: Daniel Silveira)
A unidade servia, em média, 3,7 mil refeições diárias a R$ 2 reais, além de 1,8 mil cafés da manhã a R$ 0,50. Por conta da crise financeira, não há expectativa de que o serviço volte a ser oferecido.
Para a ceia natalina, foram usados, segundo a nutricionista, 100 kg de feijão, 200 kg de arroz, 200 kg de pernil, 200 kg de carne moída, 60 kg de salada e 150 kg de doce de leite.
"O pessoal costuma passar, chorar na porta, pedir por favor para servirmos ao menos um prato de comida. É muito doloroso ver alguém que vc estava acostumada a receber aqui todo dia dizendo que está com fome e pedindo para comer algo", lamentou a nutricionista Fabiana Reis.
Luciana Reis, 35 anos, reclamou que o fechamento do restaurante tem onerado ainda mais seu custo de vida. "Antes eu pagava R$ 2 por uma comida boa e nutritiva. Agora estou pagando pelo menos R$ 10, sem tanta qualidade", contou.
Declarado "seguidor e admirador dos ideias defendidos por Betinho", o aposentado Vilmar Torres, 59 anos, acompanhou do lado de fora o evento. Por diversas vezes, ele puxou uma salva de palmas à iniciativa.
"Esse fechamento me revoltou muito. É muito triste ver essas pessoas que não têm condições ficarem à míngua. É justamente numa época de crise que esses restaurantes tinham que continuar funcionando", defendeu.
Ferreira distribuiu panfletos no qual sugere uma campanha para buscar junto aos bancos privados um patrocínio para reabertura dos restaurantes populares na cidade. "Que fosse por um ano, apenas para garantir que o estado se recupere e dê continuidade ao serviço depois", disse.